1 de nov de 2010

...

Quando alguém te cuida melhor do que você mesmo, o quê que se faz?
Você se dá?
Você se toma?
Foge?
...Ou finje?
O que acontece quando se esquece o que é solidão?

27 de out de 2010

Preciosidade

É preciso dureza sim. É preciso dureza pra sobreviver, pra manter inteiro, pra resistir. Porque quem não se faz rígido corre o risco de se rasgar na agonia de viver ou de se estilhaçar ao ouvir o próprio grito.
Não falo de uma dureza amarga, nem séria... Porque senão vem a solidão e vem o desgosto e vem o sorriso apagado. É necessário que se endureça de forma doce, mas como um diamante - indestrutível e valioso e belo -. Mas que se permita o choro, porque não é fraqueza, nem covardia. O choro traz à tona a dor que a gente nega. E a dor dá forma ao diamante que era bruto.Os fragmentos; os cortes; os pedaços perdidos: são os golpes que esculpem a alma.

2 de set de 2010

...

Quem sou eu, o que sou eu? Existimos? Vivemos?
Dirijo uma pergunta ao meu universo: Porquê o mundo?
Exijo uma resposta científica para as emoções, as espontaneidades, tudo irracional. Há lógica?
...Há o quê então?

Cigana

Ela sempre sentiu uma necessidade de. Não sabia como, não sabia o quê, ela só sentia. Era quase instintiva a procura por tal satisfação. Se existe destino, este era o dela: procurar por aí. Talvez esse seu desgoverno tenha nascido da sua necessidade demente de reação ao tédio, à rotina alienada. Sua inquietude a fez adquirir hábitos vagos, maneiras nômades - ela era passante.
Seus pensamentos emergiam uns sobre os outros - colidindo-se, confundindo-se - dando-a um semblante de loucura meio lúcida, meio fantasiosa. Sua sede era tempestuosa a ponto de se tornar destruidora. A procura ávida tornou-a cruel. Sem pausa nem descanso, algo em seu peito jogava-a para frente. Quando a sensação moribunda aumentava, ela matava. Questionando respostas inexatas, emoções instáveis.
Ela não aprendeu a agarrar seus desejos sem estrangulá-los, sem sentir-se estrangulada.

7 de ago de 2010

...

Hoje ao te visitar, percebi como o tempo pesa, e senti remorso por ter me afastado. Você é o único companheiro da minha guerra particular, o meu pilar, e vê-lo hoje, com seus olhos azuis límpidos e seu semblante ainda mais sereno deitar no meu colo, antigo e sábio como uma esfinge, senti temor dos dias que castigam lentamente seu corpo. Anos passaram e nossas percepções, voltadas sempre um para o outro, se tornaram mais agudas e pacientes. Compartilhamos da compreensão muda e recíproca que ultrapassa tudo, até o amor. E veja, sentei aqui para tentar lhe explicar o que já sabe de cor: eu não sei lidar com a morte e estou morrendo de medo.

Mural

Estava escrito - na cara, no corpo - estampado por ela toda. Cicatrizes publicadas em sua pele alva, daquelas que vão sendo descobertas na fresta que a blusa revela ao se espreguiçar ou já expostas no pescoço, ela nem se importava mais em ocultá-las, eram seus estigmas particulares. Aprendeu que mostrá-las lhe vinha a calhar, já que afastavam os de alma fraca.

30 de jul de 2010

Tensão superficial

Ando lutando para lidar com essa falta de palavras que vem me assolando. É que esqueci como se explica. Não sai, entende? Estou organizando meus pensamentos caóticos, não me agrada transbordar.

20 de jun de 2010

Carnalidade

Eu detenho as minhas mãos no cós da sua calça, não permitindo que vaguem pelo corpo que já sei todo de cor. Temo perder o controle e enquanto pelejo, você me toma toda. Você me sabe toda. E me usa, procura alguma brecha no resquício da minha sanidade, no pouco do meu controle. Meu instinto grita, se debate e me desafia... Eu mal consigo me segurar ao queimar de desejo enquanto você se entrelaça, colando seu corpo no meu. Em algum lugar do caminho minha mente me abandonou e agora todos os meus sentidos amontoam e se concentram em você: seu gosto, seu cheiro... Um tornado de sensações. Chego a fraquejar envolvida numa embriaguez tão intensa que só é necessário esse segundo para que minhas mãos ajam pelo seu corpo procurando mais e mais da sua pele, por baixo da blusa, por dentro da calça, e eu totalmente aturdida. Minha consciência trava um embate louco e inútil contra o impulso de te sentir, contra essa vontade de você. A lucidez do meu delírio está presa por um fio de sensatez e é o que me impede de me perder no seu corpo.

Bem querer

É que eu te quero. Simples assim. Até poderia querer outra pessoa qualquer, mas não: eu quero é você. Quero quero e quero! Igual a uma teimosa criança. E não é este o fato espantoso, pois afinal é só uma vontade, certo? O que me espanta mesmo é a maneira espontânea com a qual te quero: não me é vital como o ar, é natural, é indolor.
E mais: eu puramente te desejo. Não só seu beijo, como seu abraço e seu sorriso. É tão peculiar que se for um terço, dois terços, metade ou inteira, se me der, eu aceito. Sim... É assustador demais não depender, não necessitar. Só querer. Afinal acho que te quero tanto, mas tanto... que tanto faz.
Esse desejo desenfreado eu permiti, porque se quisesse, eu o estrangulava como fiz com tantos outros. Decidi por deixá-lo alojar-se em mim por não me consumir – como o parasita se nutre do hospedeiro ou como o viciado em abstinência – pelo contrário: causa calma e aconchego, é anseio transparente com o qual eu sei lidar. É um friozinho bom no ventre, uma quentura no coração.
...Te querer me faz bem.

17 de jun de 2010

Bicho ferido

Eu estou tratando minha tristeza com aspirinas, sorrisos falsos, prazeres surreais. Criei, meio sóbria, minha realidade meia boca. Preferi não sentir meu corpo dolorido, disfarcei feridas que fiz ao me debater pela liberdade que mancha minhas garras de sangue do meu sangue. Mordi a mão que tentou me amordaçar.

E escorraçada, eu me eriço taquicárdica, violenta, violada.

Eu receberia as piores notícias do seus lindos lábios de Marçal Aquino

"O amor é sexualmente transmissível"

"O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang está morto. Existe algo mais íntimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?"

"Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, é saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas."

"Estou relendo o trecho em que o professor Schianberg se ocupa da separação dos amantes. As transitórias e as irremediáveis. Ele menciona um maluco norueguês que afundou um navio como oferenda pela volta da amada. O problema é que o navio não era dele, e deu cadeia. Eu afundaria todos os navios nesta noite, Lavínia. Incendiaria o porto. Só para ver o brilho das chamas refletido nos seus olhos escuros."

"Eu adivinhava os dias em que ela viria. Já acordava com a música daquela mulher tocando na cabeça."

"A pessoa mais estranha que já encontrei na vida. E a mais sem medo da morte. Encarava o inevitável como inevitável e pronto.
Doida de rachar."

"A Lavínia sem juízo tinha cheiro de bicho. Suor e tesão. Estava sempre à beira da excitação. E era imprevisível."

"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse."

"O professor Benjamim Schianberg, o homem que dizia ocupar-se das 'fezes da alma', escreveu que nos alimentamos tanto do bem quanto do mórbido. No meio disso, ele assunta, existe a poesia."

"Conhecê-la fez do passado um mero ensaio, um treino antes de ser exposto à sua incandescência."

"Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, velado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo o que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.

Eu chamo de amor."

13 de jun de 2010

Resquícios

Eu sabia: a dor que brilhava em seus olhos, rugia desesperadamente nos meus, eu sabia do medo, eu sentia sua dor. Naquela noite supliquei, porque não sabia se seria capaz de ficar só.
Hoje sou manca, mas consigo andar.
Sua nostalgia me assola em alguns dias.

Oco

Falseou umas palavras,
uns olhares,
uns sorrisos.
Trocou uns beijos,
uns apertos,
uns afagos.

Entediou-se.
Inventou uma desculpa,
foi embora
e levou seus vazios.

Entregue

Fico frequentemente presa na deliciosa sensação que é seu toque descendo ao longo do meu dorso nú, marcando minha pele quente com nosso contraste arrepiante. Eu, meio tonta, meio enfeitiçada, procuro qualquer sorriso que me guie aos seus lábios. Você, de tão doce, me deixa dócil. E suas mãos vão aplacando meu anseio, atalhos talhados na minha pele, nessa maneira particular de me tomar como se eu pudesse lhe pertencer. Nos seus olhos vejo alguns descompassos; nos seus toques, alguns tremores. Dos seus lábios ouço um sussurro sincero, quase familiar, quase desconhecido. Como eu poderia não ser sua?

Passageira

É inevitável: quem luta como eu, sai ferido, deixa ferido… Por isso passo e deixo, em rastros vermelhos, meu desejo de quem tentou ficar, a mera ardência na boca e no coração, memória do meu arfar.

Cigarro

Faz frio e estou sem casaco. Maldito inverno gelado. Eu ando pelas ruas opacas e resisto a pegar um cigarro. Minhas mãos coçam mas prometi a ela que pararia de fumar. Ela odiava meu vício de preencher com fumaça o vazio no peito e achava insuportável quando meu cheiro misturava-se com tabaco e solidão. Irrito-me em abstinência – não com ela pois por ela eu faço tudo – é o hábito antigo que me faz necessitar de ao menos um trago. Esfrego as mãos esperando que o atrito me aqueça e ignoro meu desejo por um maço de cigarro, de qualquer maneira, necessito-a mais.

...

Ao cair o breu e eu já nada enxergar a um palmo do nariz,

no exato instante, no breve momento antes do amanhecer…

Corto minha jugular e espero, serena e agonizante, que a minha vida se esvaia até meu corpo secar.

Na explosão do prazeroso delírio que me toma ao sol espreguiçar-se, renasço; e arrebatada pelo desejo imenso de viver,

eu choro. E me ponho a respirar.

Algo

falta.

Derrota

Quando a alma gritou angustiada pedindo guerra e o coração não mais pôde escutá-la, os olhos já não negavam as lágrimas e as lágrimas enlaçavam os olhos, uma desilusão sacudiu o corpo. E os punhos estourados, e os cortes na face, e os joelhos ralados sangraram.

Fui manca e ferida assumir meu cansaço.

Frio

Frieza é mentira. É brecha. Frieza é porta destrancada, que tem jeitinho de abrir. É porta escondida. É Medusa de pedra. A frieza é sensação de sair da guerra morto-vivo, ferido mudo traumatizado. É medo de chorar. E chorar escondido. Frieza é secar os olhos e sorrir e fingir. Frieza é ouvir o coração acelerar e ignorar. Frieza é queimadura de terceiro grau. Frieza é dormência do tapa na cara. É corcel ferido pedindo tiro de misericórdia. É grito estridente. É ausência.

É silêncio.

Fuga

Sim, eu sou tão exaustiva… E eu entendo e me perdôo e me contenho. Mas entristeço demais. E vou me afastando, passinho por passinho, abrindo espaço para respirar, afrouxando minhas mãos em seu pescoço. Eu vou antes de te matar, amor. Eu vou. E vou para onde eu possa explodir em minha própria nuance, longe o bastante para que seus olhos não ardam e alheios, não percebam uma única lágrima a me riscar o rosto.

...

Eu sinto uma dificuldade que não dá para descrever, eu não consigo dividir-me. Sou incapaz de dizer e ser coerente, eu sou uma mistura caótica de sentimentos desconhecidos, de razões irracionais. Eu vejo vivaz demais. E ao meu ver, é muito belo quando minha fugaz tentativa de ser compreendida me parece alcançada. Alguém me compreende? Alguém compreende que maior tristeza é não ver o monocromático? Eu sou incapaz de abraçar minhas pernas e balançar-me daqui para lá, daqui para lá, daqui para lá… Assim. É! É assim mesmo.
E agora me vem uma pequena lágrima salgada de melancolia incompleta.

Entrega

Vou mergulhar na ignorância de quem ama. Eu vou despencar de barriga na água gelada, dando braçadas a favor da correnteza.

Só assim me entregarei, preciso abrir a camisa e me prostrar de peito nu. Eu preciso não saber parar de doer, mostrar os pulsos sem empunhar, dar mão alma e coração. Eu me sinto rígida e intransponível, estou sendo consumida pela agonia do inquebrável. Meu estático enigma de Esfinge carrega a charada cruel que me define. Quem sou eu? Que sou eu? Decifra-me ou devoro-te, como devorei a mim mesma.

E agora abro os braços sob os trilhos e te espero de olhos fechados.

Salva-me de mim!


28/02/2010

A menina e a tempestade

Ela é tão tempestuosa! Pra ela não há prazer maior que ouvir a chuva forte tamborilar na janela do seu quarto, enquanto lhe falta coragem para lançar-se debaixo dela e fundir-se como somente ela mesma poderia. O que a detém é a maneira como a chuva lhe derrete, fazendo aplacar o seu vermelho. Ela tem uma paixão arrebatadora pelas coisas que a enfraquecem. E se existe algo que lhe mete medo é esse dilúvio que desaba do céu, capaz de cobri-la inteira de lágrimas. Medo que a faz estender o braço e sentir pingar entre seus dedos, catando gotas frias na palma da mão… Ela se eriça toda! E logo recolhe a mão ardida na dor que é sentir o céu chorar. Ver o céu lacrimejar lembra-a de si.


Fragilidade

Choveu. E agora eu sinto o cheiro da terra úmida me aplacando a alma. Estou tão mansa… Quase dócil. Eu olho o céu pálido e me sinto frágil como taça de cristal.

- Eu não posso lidar com a solidão.

Papel e caneta

Eu senti. Senti novamente esta necessidade louca de pôr pra fora algo que eu nem sei mais o que é. Senti sim, mas o quê senti? Entre prantos e sorrisos e orgasmos e melancolias e prazeres e desprazeres. Estou na linha bamba, na tênue linha do nada. Cheguei ao ponto de não conseguir mais me segurar, esta é a minha necessidade vazia de reencontrá-las. Ah! Como eu senti falta! Como elas sentiram falta! Que belo dueto é participar de algo tão necessariamente desnecessário… É uma dor visceral, é um amor visceral… É visceral a razão pela qual me jogo do trapézio de cabeça, ombros, braços, pernas… de alma. Elas me agarram antes que eu me espatife no chão. E o deleite que é ao me agarrarem a garganta, me fazendo agonizar em um grito de terror.

A minha mudez é quebrada.


(03/02/10)

Vício

Entre tragos e afagos

e bebidas e cigarros

eu vou tomando você

Orgulho

Mas já notou?

Se me agarro aos teus cabelos é por medo das minhas pernas falharem… E na tua frente, não caio jamais.

Cores e almas

Eu vou contar uma coisa muito importante: Não tem como ser Eu. Porque o Eu são pontos de vista. Será compreensível? Eu sou no ponto de vista meu. Mas também sou no ponto de vista do caixa do mercado, da moça da padaria, da minha tia e do meu avô. Eu sou incompreensível. O Ser muda de acordo com os olhos que o vêem e isso me deixou confusa. E agora? Acho que só sobra essência, que é cor da aura, imutável, invisível. É segredo sagrado de cada mortal, a cor da sua natureza, pigmento de sua alma pulsante. A tonalidade de um ser é um mistério tão intrínseco que tem seres que não se sabem, esses são volúveis e se perdem na sua própria imensidão, acreditam cegamente no seu Eu. Há ainda os que teorizam sua cor, alguns poucos um dia se descobrirão errados, outros viverão na ilusão do autoconhecimento. Eu não julgo tal pretensão, pois é difícil explicar que cor da alma não se explica: são intensas demais, misturas de tons nunca vistos, arco-íris de uma gradação só. E é por ser algo tão complexo, tão inexplicável que não existe maneira mais bela de se conhecer um mortal do que compreender a sua cor.

(25/01/10)

Breve reflexão

Eu tento não assustar. Ando sufocando promessas comuns, palavras sem sentido. Basta saberem a mim. E é só.

Eu não mais falo juras, eu as faço. Na minha mudez eu renuncio ruídos falsos. Eu grito o silêncio do meu sentimento fincando unhas e dentes porque a verdade é que não aprendi a dizer.

Eu não sei soar.

Por fora

Eu pego esta minha vontade louca de ser em desenfreio e vou transbordando-a no papel, devagarinho para não borrar, esparramando sangue, suor, saliva, pranto. Pedaços misturados de mim, arrancados para não me explodir. Este corpo, este nome, esta vida não me cabem. Eu não consigo me caber. Sou intranquila porque algo muito grande mora em mim. Algo que eu não consigo tirar. Tenho a impressão de que se tiro eu morro. Ele é todo vivo em mim. Esse algo toma o ar em sua volta ruidosamente, sempre vigilante. Tem pêlo negro e olhos rubros, por vezes ruge por outras mia. Não sei o que come, é algo entre carne e sangue, noite e lua. É fera que carrega consigo sensação muito bela e melancólica, anda entre silêncio e solidão. Eu tenho medo dela porque ela me possui. Eu pertenço a essa fera. Há algo muito indomesticável nela que domestica a mim. Ela sabe ferir mas me permite o afago, eu tenho cicatrizes. E a amo porque é a única que me causa tanta dor. Eu não sou humana.

Anonimamente

Eu sou nada. Sou a passante esperando o ônibus, mascando chiclete, sentindo calor. Quem vê de fora não vê minha alma de bicho. Não tenho olhos de lince, não tenho multipersonalidade, não sou boêmia. Romântica? Cubista? Simbolista? Parnasiana? Não não. Que tal imediatista? É, um pouco. Só sinto muito conforto dentro das palavras… Vou jogando que nem carteado e dominó, a poesia eu faço sem querer.

Eu sou anônima. Que consolo!

(16/12/09)

Por dentro

Eu carrego tanta selvageria nos olhos que acabo por meter medo nos mais desavisados. Não que seja ruim, sou mesmo bicho arisco que não come na mão de ninguém, nunca comi – Eu não, obrigada. Prefiro passar fome a não caçar meu alimento. – e é por isso que espanto aos rosnados os ousados que pensam em me amansar.

Porém, há os poucos que ainda me incitam o faro com o cheiro de voracidade, esta exalada também da minha epiderme. Esses carregam o rubro da vida em si.

– E eu me apaixono pelos que me encostam no focinho e me olham bem no fundo dos olhos, são os que me encontram verdadeiramente. Fera em humanidade. Humanidade em fera.

Pranto

Ela não permite que ninguém a veja assim, seu segredo ela confidencia diante da sacada: negra noite envolvendo, vento gélido acarinhando… Lua-linda-botão-de-prata. Só seu arcanjo sabe que a menina também sabe sofrer. Só ele vê a dor que dói em tudo lá dentro, a dor de ser quem ela quer.

Brotando dos olhos e descendo bem brilhantes, diamantezinhos escorrem pelo seu rosto.

Dói doer. Doer dói. Alguém pode explicar pra ela como é que isso pára?

Epifania

Vou começar assim: do nada. Estou tentando de alguma forma transformar pensamentos alheios em palavras soltas. Pegarei o alfabeto e nele espalharei o que conseguir mostrar por estes símbolos. É. Tento inventar uma maneira de ir juntando tudo ao meu redor em períodos, engana-se quem pensa que é fácil, já que essa existência por si só é um tumulto. Simples é escrever, o complicado vai ser misturar tudo o que sou, e eu sou muita coisa.

Começo experimentando, não sei como fica melhor. Será que eu devo me reinventar? Desbravar a meu gosto o próprio eu no personagem? Estou tão confusa… Contentando em ir de mansinho, eu que sempre fui de um atropelo brutal, pressa louca de viver e ser vivida, me encontro na tortura dos passos da tartaruga, num desenvolvimento de um cálculo que deveria ser exato – mas nem sei, não sou boa de conta -. É uma tortura pôr os pés onde se sabe.

Eu não vou falar para um mundo cheio de vazio, mundo surdo, mundo mudo, mundo cego. Não me importo mais em gritar, apenas falo ao meu tom, falo com quem pára para me ouvir, ou então para o nada – comigo mesma -. Não quero perder a voz tentando dizer que tem algo de errado na vida não-fosforescente.

E oras, todos que se danem, aqui eu mostro a mim. Isto é uma forma de me ver de longe. Eu não sou eu, só serei quando tirar minha roupa, minha pele, minha carne e meus ossos. Aí sim eu alivio. Então antes de ler saiba: isto é um processo. Eu quero ficar nua. Eu só quero ser eu.

(10/12/09)

Filosofando a incoerência

Você refletia sobre o porquê de não ser necessário nos definir e eu pensei ligeiro em dizer: nada nesse mundo se define, todas essas determinações são apenas invenções dos que acham o espontâneo vulgar, daqueles que ensaiam sensações e maquinam emoções.

“Somos inimigos, odiamos.”

“Somos amantes, amamos.”

“Somos amigos, cuidamos.”

“O corpo esquenta, tesão.”

“O peito aquece, paixão.”

Foram criados tantos rótulos, roupas e fantasias… Tudo disfarce para que não se assustem os medrosos ou se intimidem os covardes. Não estranhe, talvez você ache peculiar o meu modo de enxergar a nudez que se esconde por trás do tecido. Por esse motivo eu poderia lhe explicar que como a fluidez do rio, nós somos inexplicáveis; ou assim como a brisa invisível arrepiando a pele… Poderia, ainda, definir meus olhos, seus olhos, nossos olhares e chegar a uma inconclusão. E titubearia que é por sermos muito espelhadas, a compreensão mútua que não sufoca ou amarra: paralela, porém complementar, não interfere e nos faz encontrar.

É… Eu teria muita coisa pra lhe contar… Mas quanto a mim o que sinto só é instinto e isso não dá pra articular.

Quimera

Se meu coração, que fiz questão de despedaçar, está enterrado nas areias do litoral, tão distante de mim, então como é que ainda sinto tanto?!
Se minha alma lacrada eu escondi no fundo da primeira gaveta do meu armário, porque é que tudo ainda me dói tanto, diga-me?!

Como o diapasão não soa o meu vazio?

Minha mente debate-se na tentativa de tomar o controle. Controle sobre o quê? Sobre a carne que fui incapaz de arrancar. Ela aprendeu a pulsar na agonia do sentimento reprimido, a sangrar a ferida que é viver. Minha essência foi preenchida pelo puro instinto, e agora minha respiração tem o hálito voraz de um desejo deveras animalesco.

Sou mulher ou sou bicho? Nem sei mais…

Sussurrando

Sussurre… Sussurre baixinho, deixe-me ouvir seu timbre irresistível bem pertinho de mim, que é pra eu poder te decorar, te fantasiar. Fale-me qualquer coisa, fale o que quiser, fale do seu encanto, fale do seu dia, mas fale roçando seus lábios em mim. Só quero ouvir sua voz a me torturar… Degustar o prazer que é ouvir o meu nome ressoar.

O passado

E ele a fitou concentrado em juntar as palavras que havia escolhido, depois dos anos e dores passados, agora sereno, tinha certeza do que dizer-lhe, então respirou fundo, e pela última vez, passou a mão em seu rosto permitindo sentir a textura daquela pele que por tanto e tanto tempo desejou:

- Foi deslize meu: confundi a lua com seus olhos e acabei por perseguir o brilho errado – pequenino inseto que voa para o lustre. – Quando bem próximo, você os fechava e me desorientava; eu batia nas paredes te procurando, cego em meio a sua escuridão. E você não imagina o quanto essas colisões me causaram feridas, nem aos menos tem idéia do quanto custou para curá-las, e foi muito, foi tudo… eu pensei até que não era capaz, que talvez fosse demais para o meu corpo, para minha mente… para meu pobre coração. Quase morri por você, cheguei muito perto de desfalecer e mergulhar novamente na angústia que era lhe procurar em seu próprio negrume. Por muito tempo eu vivi na cegueira, orientando-me às apalpadelas, resistindo aos seus chamados, meus delírios. Mas ao passar do tempo, fui-me acostumando, e a dor, já mansa, bem domada, não mais me mordia a lucidez. Foi aí que eu compreendi! Meus olhos estavam contigo, e como poderia enxergar sem eles? Então eu os tomei de volta, tomei de súbito, tomei o presente que eu lhe dei e que você não soube usar. Que pena… Era o presente mais belo que se poderia dar, minha visão das cores, dos mundos, dos amores; e você não soube guardar.

Falou tudo de forma pausada, sentindo o prazer em cada palavra, o timbre da saudade de algo que já se extinguiu. E mudando de tom, continuou:

- Eu virei sim, virei às costas para você. E fui andando devagarzinho, bem pra longe, sanando aos poucos minha decepção. Visitei a todos, conheci tudo, e voltei ao meu lar, sossegado o coração. Em meio à solidão, no meu quarto, deitado e envolto no breu da noite, eu descobri como enxergar no escuro. Na noite em que experimentei tal breu fora das minhas paredes, eu dei por encontrar uma sensação diferente, algo que nem soube definir: um alívio indescritível de estar ali, de voltar ao meu Eu. Pena que não me satisfiz, queria algo que também sanasse o desejo há tempos encravado na minha carne… Então eu parti. Abandonei meu lar, meu isolamento, fui inquieto por aí, cobiçando nem-sei-o-quê. Eu atropelei muitas pessoas nessa procura, fiz o que você fez comigo: às distraídas roubei e fiz coleção de olhos. Para só depois me deparar com os únicos que não tive a coragem de tomar… São olhos bem diferentes dos seus, olhos de léu, olhos que carregam o céu. E foi aí que percebi: o tempo todo eu queria um olhar como aquele, que via da mesma forma suas cores, seus mundos, seus amores; porque somente ela, que enxerga igual, poderia me compreender.

Agradecimento

Aos que me calam: obrigada.

Nada me é tão valioso

quanto aprender a gritar meu desdenho

s i l e n c i o s a m e n t e . . .

Eu te amo??

constantemente

agora

invariavelmente

a toda hora

eternamente

sem fim

continuamente

assim.

Viva!

A humanidade!

A cidade!

Nossa sociedade!

…esta enfermidade!

Lembranças de Lyra

Dome a dor. Mas dome-a devagarzinho, para que nela sempre possa confiar, dome-a sem chicotes, sem esporas, sem arreios. Dome como Belerofonte domou Pegasus ou como um dia, os índios do faroeste domaram seus cavalos. Vá com calma, ensine-a, vá lidando com persistência. Assim, quando ela estiver mansinha,mansinha… Você poderá galopar ao vento, de braços abertos, quando quiser, quando precisar. Se domá-la, ela nunca lhe fará mal, mas se a domina, amarrando, oprimindo, sufocando, um dia ela corcoveia contigo e te joga no chão.

“Amor o quê?”

O Amor não tem quatro letras, e sim o alfabeto inteiro. E digo mais: alfabeto russo, árabe, grego, japonês e todos os outros. Na verdade, o Amor em si não tem nem nome, mas pra gente pode ser João, ou talvez Maria… E é por isso que pra gente ele acaba tendo cara e medida: morena de 1,65, parrudo de 1,80.

Ah, mas difícil mesmo é responder como foi que ele surgiu… Talvez tudo tenha começado quando você notou a expressão que ela fazia – franzindo o cenho daquela forma tão característica – ao se concentrar, ou então a estridente gargalhada que soava só pra você quando terminava de contar uma piada. O Amor brota assim: do nada; e há vezes em que a gente nem percebe, porque ele fica quietinho, quietinho… Ou quem sabe, a gente que seja surdo.

Amor não se diz em frase de sete letras e três palavras. Amor nem mesmo se escreve! Oras, dizer “eu te amo” não é dizer nada, Amor é dito escondidinho… Na tarde toda de segunda-feira, ou durante a semana inteira.

E por que Amor? Ih, não sei não, mas eu tenho um palpite:

Por tudo. Para tudo.

como vai? (ou dialogando entre a demência e a saudade)

- Oi. Como vai você? Como vai seu mar, sua lua, seu céu? Como vai seu mundo? Ainda lembra dos amores? Ainda pensa nos amigos? Por onde anda? Pra onde vai? Já provou pra ver se é algodão-doce? E seu sorriso? Como vai? Seus olhos continuam brilhando? Quando você vem me visitar? E a minha falta? Ainda faz?

-

- Eu também. Eu te amo.

Sutil

Bela declaração não declarada,

Aquela que não desce aos joelhos

Nem brada pelos telhados

É declaração de passarinho,

Que sem tomar a atenção

Pia com os olhos

e pousa na sua mão.

Mobília

Ufa! Basta-me a mim!

Não consigo nem caber-me,

Quanto mais a você.

Mas se me quiser… eu dou

qualquer peça desse meu ser

para conseguir

te acolher.

sobre corcéis, lobos, ogros e esferas

A gente inventa definições pr’aquilo que a gente morre de medo: tudo que não dá pra ver, nem tocar.

Pra prevenir o ogro lá dentro de correr furioso por aí, o jogamos numa gaiola de quatro letrinhas, apertado e desconfortável. A gente chamou esse ogro de Ódio e o expôs na vitrine do zoológico.

Com vergonha de mostrar aos vizinhos, trancamos o louco no quarto dos fundos, de paredes acolchoadas pra que não se machucasse. Esse a gente apelidou de Alegria.

A água salgada do nosso mar, a gente colocou numa esfera com rótulo de letras garrafais em cinza: Tristeza.

Capturamos o lobo vermelho-incandescente, encoleirado por um enforcador, a gente o prendeu ao pé da nossa cama chamando–o de Amor.

E por fim… Temendo os coices do corcel fogoso, a gente lhe pôs um cabresto, forçou-lhe na boca um bridão, jogou em seu dorso uma sela; Cortamos sua crina e marcamos, em ferro quente, na sua garupa, a palavra LIBERDADE.

P.S.: Nem esporas, nem chicotes, nem arreios o impedem de derrubar os que ousam montá-lo. Nem pastos, nem baias, nem redondéis são capazes de conter seu disparo… E quando este dispara, liberta, leva consigo o louco em seu dorso, o lobo em seu encalço e o ogro – carregando a esfera na mão.

A gente inventa definições pr’aquilo que a gente morre de medo…

Geada

Quanto enfado! Há muito que nada lhe sequer perturbava.

Andava sem rumo, reduzindo a cinzas os campos de trigo, incendiando florestas, cruel passatempo de causar caos por diversão, pela pura paixão.

Seu corpo palpitava inteiro: fervendo queimando ardendo insuportavelmente – temperatura nociva ao toque comum. Julgou o mundo intolerável ao seu calor e prendeu-se ao seu ego, enfadada. Onde estaria o alvoroço pelo qual procurava? Necessitava tanto consumir tal chama… Que esta já lhe custava a agonia de não mais abrandar.

Bate o sopro gélido. De quem era essa presença?

Fitou-a de longe, mãos formigando, olhos em combustão. Interessou-se e aproximou-se, ansiando tocar a pele que lhe causava friagem. O embate imediato de auras – geada e brasa – arrebatou seus sentidos, aplacou a vibração de sua chama: deleite imediato. No impulso uniram as bocas os corpos as almas, mergulhados em irresistível contraste: frescor suor alvo rubro fogo gelo… Umidade. E entregaram-se aos desvarios.

Breve diálogo emocional

- Cansada?

- Não.

- Quanto fôlego!

- É, desta vez estou sem pressa.


Dueto

Colam-se bocas

Calam-se mentes

Ao que não mais me interessa

Vamos começar pelo que já não me dá saudade, vamos iniciar com meu desgosto pintado de preto: fosco e feio. Eu vou escrever sobre você.

Tamanha ingenuidade ao virar-me as costas… Que audácia! Realmente pensou que meu amparo lhe seria eterno? Poupe-me! Arranje quem possa lhe carregar que eu jamais farei seus caprichos. Tenho pena de você, do seu encanto venenoso, ilusão podre de que me controla.

Quanta prepotência…!

Ora, eu não pertenço a você.

Eu nunca pertenci.

Imediatismo

Aqui, agora, não demora!

Pronta e completamente

Junto a mim, e aí sim,

Eu sossego…


Ao Arcanjo (2)

Mas que falta tu fazes…

Tua ausência é tanta

Que dei por inventar-te a presença

Já nem sofro mais

Apenas degusto melancolicamente,

A cada batida de meu coração

O que resta de ti:

Vazio no canto do salão.

Ao Arcanjo

21/09/2009. Um ano.

Sei que passaste tua noite em turbulência, meu amigo… O uivo dos teus ventos inquietos bateram-me a janela, agitaram minhas cortinas. Eu, que já nada ouvia, passei a escutar teus prantos por toda a escuridão do meu quarto – ou será que eram meus? Nós nos confundimos tão facilmente…

E ao amanhecer, tu, exaurido de teu escarcéu repleto de dor, derramas tuas lágrimas de saudade, alagando todos os cantos que me lembravam a ti – toda a cidade molhava. Silenciosa e dolorosamente… Tua tristeza me toca, traz à tona todo o amor que sinto por ti e me encharca, fazendo-me enxergar a tamanha crueldade que é estarmos separados.

Ao ver tuas lágrimas pingarem em mim – no rosto, nos olhos – eu finalmente compreendi que esta falta lhe dói tanto… Dói mais que a todos. Por chorar incontáveis noites, eu, tão tola, acabei por dar-te desespero. E agora que está tudo mais claro… Mais límpido e sereno, tomo a dor que lhe pesa nas asas, tomo-a, faço dela pedacinhos… Mato-a. Para enfim, alçar-te vôo em paz.

Ode ao impulso

Não, obrigada. Eu não vou me submeter ao juízo, à sanidade, não quero saber de consciência.

Chega de me reprimir, de me controlar, de me disfarçar. Chega! Vou dançar apenas ao som da minha música.

Não, obrigada. Não quero bom senso, não quero cortesia, não quero essa vida medíocre: vida de gente que não vive de verdade.

Vou viver da lua, do vento, da noite – vou viver apenas de mim, da minha essência,

…da minha verdade.

Pegasus

A turbulência de tantos vôos o fez cair ferido, falecido. Sem graça, sem chama, nem soube como chegou ali. De pés no chão e asas quebradas, permaneceu parado e mudo, os braços cansados. Numa mão carregava cacos, na outra, o medo de mover as pernas – É que bateu suas asas demais para que pudesse descansá-las, viveu ao vento por demasiado tempo para que pudesse se lembrar do que era viver com os pés no chão.

Avistou então, um semblante sereno, contraste da sua aflição, se aproximando, lhe intrigando. Tal ser arrancou-lhe das mãos seus pertences: lançou o medo longe, emendou a esfera rubra e guardou-a no bolso, cada movimento carregado de extrema fluidez. Suavemente, consertou-lhe as asas e o fez confundir-se: eram as límpidas provas de que não permaneceria; e mesmo assim… Curou-o. Num misto de descaso e ingenuidade, a figura estende-lhe a mão, convite ao passo à frente. Ardendo de curiosidade, acompanha o tal desse encanto que o regenerou.

P.S: nas suas asas cicatrizadas, sobrou-lhe apenas a ardência dessas mãos.

Querido Hospedeiro

Meu pobrezinho… Ainda não notaste? Isto manso, domado, adestrado não me basta, não me é amor.

O que lhe tenho é vício de fênix.

Nos braços teus, chego sempre morta de dor – e de amor – apenas para consolar-me, reviver-me. É o motivo meu de cair em ti… E tornar a partir.

Este teu conforto não me mata. Saber que tenho a ti não me faz bem nem mal: é comodidade cruel. Porém és tu, incorporação veemente do sentimento tranqüilo que tanto odeio – mas vital para emendar-me os cacos – o único capaz de catar meus pedaços.

Eu creio que de tanto ver-me partir… E retornar e partir e retornar e partir… Algum dia acabarei partindo-te a alma. Ao morrer-me por outros na tua frente, por fim… Matarei-te. E renascerás livre de mim. Afinal, melhor assim.

...

Eu procuro o desconforto
E qualquer incômodo que me faça viver
Afinal…
Mais prazer não há que esta arritmia em meu coração:
Meu excesso
Minha inquietude sentimental.

Confissão

Conte-me, meu bem… Conte seus segredos, suas vontades, seus sentimentos. Eu te ouviria como ninguém jamais faria: guardaria, atiçaria, explicaria… É que eu, que sigo os teus passos, sei tuas valsas, ouço tuas melodias – te leio tão bem! Só eu… Que não lhe vi por inteira… Já lhe decorei toda.

Essência

É da minha essência me procurar-me por aí: pelos beijos e abraços, pelas risadas e sorrisos. Sim, sou eu! Covardemente corajosa, friamente amorosa. Não peço que compreenda, nem eu mesma chego perto de me compreender.

...

Eu não sei me explicar. Não saber ditar-me é minha única essência, minha marca registrada sempre foi a inconstância. É o senso caótico, o ‘quê’ imprevisível que me locomove.

Algo tão inquietante mora dentro de mim… que não mais descanso, já não prego meus olhos. Eu corro de um lado para o outro procurando mais olhares, cultivando mais paixões. Eu não paro. Eu não consigo parar… de procurar desafios. Eu corro atrás de algo que nem sei o que é: basta que me tome o fôlego, que me deixe quieta, que me faça amar.