13 de jun de 2010

O passado

E ele a fitou concentrado em juntar as palavras que havia escolhido, depois dos anos e dores passados, agora sereno, tinha certeza do que dizer-lhe, então respirou fundo, e pela última vez, passou a mão em seu rosto permitindo sentir a textura daquela pele que por tanto e tanto tempo desejou:

- Foi deslize meu: confundi a lua com seus olhos e acabei por perseguir o brilho errado – pequenino inseto que voa para o lustre. – Quando bem próximo, você os fechava e me desorientava; eu batia nas paredes te procurando, cego em meio a sua escuridão. E você não imagina o quanto essas colisões me causaram feridas, nem aos menos tem idéia do quanto custou para curá-las, e foi muito, foi tudo… eu pensei até que não era capaz, que talvez fosse demais para o meu corpo, para minha mente… para meu pobre coração. Quase morri por você, cheguei muito perto de desfalecer e mergulhar novamente na angústia que era lhe procurar em seu próprio negrume. Por muito tempo eu vivi na cegueira, orientando-me às apalpadelas, resistindo aos seus chamados, meus delírios. Mas ao passar do tempo, fui-me acostumando, e a dor, já mansa, bem domada, não mais me mordia a lucidez. Foi aí que eu compreendi! Meus olhos estavam contigo, e como poderia enxergar sem eles? Então eu os tomei de volta, tomei de súbito, tomei o presente que eu lhe dei e que você não soube usar. Que pena… Era o presente mais belo que se poderia dar, minha visão das cores, dos mundos, dos amores; e você não soube guardar.

Falou tudo de forma pausada, sentindo o prazer em cada palavra, o timbre da saudade de algo que já se extinguiu. E mudando de tom, continuou:

- Eu virei sim, virei às costas para você. E fui andando devagarzinho, bem pra longe, sanando aos poucos minha decepção. Visitei a todos, conheci tudo, e voltei ao meu lar, sossegado o coração. Em meio à solidão, no meu quarto, deitado e envolto no breu da noite, eu descobri como enxergar no escuro. Na noite em que experimentei tal breu fora das minhas paredes, eu dei por encontrar uma sensação diferente, algo que nem soube definir: um alívio indescritível de estar ali, de voltar ao meu Eu. Pena que não me satisfiz, queria algo que também sanasse o desejo há tempos encravado na minha carne… Então eu parti. Abandonei meu lar, meu isolamento, fui inquieto por aí, cobiçando nem-sei-o-quê. Eu atropelei muitas pessoas nessa procura, fiz o que você fez comigo: às distraídas roubei e fiz coleção de olhos. Para só depois me deparar com os únicos que não tive a coragem de tomar… São olhos bem diferentes dos seus, olhos de léu, olhos que carregam o céu. E foi aí que percebi: o tempo todo eu queria um olhar como aquele, que via da mesma forma suas cores, seus mundos, seus amores; porque somente ela, que enxerga igual, poderia me compreender.

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