23 de jan de 2012

Reconstrução de Caio - Os dragões não conhecem o paraíso

Esse dragão rubro, bem, é o meu segredo mais profundo. Ele mora em mim e eu moro nele. Nós convivemos numa simbiose dolorosa desde que passei a me compreender. Não o descobri, ele aterrizou estrondosamente na minha frente, arregaçando os dentes em ameaça. Naquele dia olhei em seus olhos e vi estampada na sua violência um medo quase infantil.

Desde então eu o acolho. Só não consigo domá-lo, seu instinto de fera é mais dominante do que meu raciocínio. Há entre nós dois um conflito o qual me tornei dependente. Já não me recordo plenamente de nossos combates por terem sido tantos os golpes e rasgos trocados, mas ficou gravado na minha memória todas as feridas que tratamos mutuamente.

No momento em que tomo a coragem pra mostrar meu dragão, as pessoas costumam arregalar os olhos numa expressão de pânico e se afastam sem movimentos bruscos, num gesto de terror comedido o qual me é gozado. Acho compreensível o pavor de uma criatura tão poderosa.

Porém admito que eu mesma já temi esse dragão. Há vezes que ele atrapalha meu raciocínio com um rugido estridente e aborrecido, eu me calo e recolho minha razão. Por convivência aprendi que é muito belo, apesar de ser genioso e costumar cuspir fogo ao se irritar. Nunca vi criatura que carregasse tanta nobreza em seu semblante e tanta fugacidade no olhar, não há um dia em que não me surpreenda com a sua ferocidade pura e crua. Ele é a razão que me tira o sono a noite e me enlouquece paulatinamente, ao se prostrar no meu quarto escuro - por vezes ao meu lado, por outras mais afastado - seu silêncio preenche meus pensamentos de forma ensurdecedora. Contudo há vezes em que se ausenta, e então não me resta mais nada além de sentir sua falta.

E essa falta é a que me faz redigir.