"Por trás da palma da mão contra o peito, por trás do pano da camisa, entre massas de carne entremeadas de músculos, nervos, gorduras, veias, ossos, o coração batia disparado. Você vai me abandonar - repetiu sem som, a boca movendo-se muito perto do fone - e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue para manter-se viva. Você rasga devagar seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no prato."
25 de set. de 2011
3 de jul. de 2011
Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres - Clarice Lispector
...Eu não digo que eu tenha muito, mas tenho ainda a procura intensa e uma esperança violenta. Não esta sua voz baixa e doce. E eu não choro, se for preciso um dia eu grito, Lóri. Estou em plena luta e muito mais perto do que se chama de pobre vitória humana do que você, mas é vitória. Eu já poderia ter você com o meu corpo e minha alma. Esperarei nem que sejam anos que você também tenha corpo-alma para amar. Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso, Lóri, escapei com a ferocidade com que se escapa da peste, Lóri, e esperarei até você também estar mais pronta.
28 de jun. de 2011
Fascínio
Com os olhos entreabertos e a mente nublada de sono, minhas mãos procuram instintivamente pelo calor da tua pele. E meus lábios levam-me aos teus para que possa te experimentar mais uma vez - contigo sempre parece diferente, mesmo que teu beijo seja tão marcante e teu gosto, característico - . Gosto de adormecer em teu corpo e vezemquando espiar, sempre encontro esses olhos castanhos profundos a me fitar. Colo teu corpo no meu e sinto o hálito familiar a me roçar no rosto, a necessidade de me fazer parte tua é tão grande que tenho vontade de fundir-me a ti.
5 de abr. de 2011
Tácito
(Cruzo com seu olhar que me agarra a sanidade e sou sua por instantes, mal disfarço e confesso que quero mais de você. A ideia do seu cheiro doce me invadindo como um feitiço, a delícia que deve ser ver sua boca entreaberta esperando pelo encaixe da minha. Imagino se suas mãos agem num carinho discreto ou num toque brusco... e se talvez me peçam para ir mais além ao deixar marcas, um pedido mudo de desafio. Quantas vezes já não imaginei qual seria a textura da sua pele?
Dá-me sua garganta que tanto me atrai os lábios; sua voz, seus sons. Eu prometo segurar minha sede e ser paciente... tomar meu tempo te ouvindo, te despindo, te adorando. Descobrir suas expressões, seus arrepios. Compreender com o que tanto divaga. Se me escuta, quem sabe confidencio meus desejos, torno-me parte dos seus. O que eu não faria para te ter?)
Reza
Prometi à mim mesma que não mais ia negar essa melancolia, nas noites em que ela me visita abraço-a e me torno uma só a dançar envolta em breu, e meu corpo magoado vai oscilando ao som do réquiem de um amor.
(Percebo que o sangue dos meus cortes é uma mistura de quando entreguei minha essência a outro alguém.)
Que agora eu seja fluida como a água, e que a água do meu corpo flua pelos olhos até me secar.
(... levando consigo a amargura que me afoga.)
Assumo a dor e o ódio que moram em meu interior,
(Na minha alma existe uma maldade como a de um cão agredido.)
o meu animal se tornou um monstro cruel e passou a me canibalizar.
(Ele me agride por não mais me pertencer.)
Afago-me amansando-o aos poucos, amansando-me de mim mesma.
E se mesmo assim eu não conseguir, tenho aqui as palavras que me refugiam.
(E como em uma oração, peço-as que me protejam, porque procuro a fé que há tempos míngua em meu coração.)
22 de mar. de 2011
Ataque
Nessa fúria louca, finalmente dei conta de cuspir as palavras que me fazem enferma. Meu corpo frágil e meu coração moribundo pronunciam-se por mim: gélidos, duros, afiados mas verdadeiros.
Lembra-se das coisas lindas que um dia te disse, meu amor? Recorda-se do que te prometi? Reclama da dor, mas a verdade é que fere a si mesma. A verdade é que eu mantive minha palavra e você não suportou, fraquejou ao perceber o quão complexo pode ser estar com alguém. E contudo eu sempre estive ao seu lado, silenciosa, invisível, agonizante enquanto você recorria a mim inconscientemente, a contragosto de si mesma, fui eu que te sustentei. E não diga que não sente, não diga que é mentira, porque sei que ao menos me odeia. Mas saiba que fui aonde ninguém mais iria por você, passei por uma depressão suicida, andei pelo limbo e voltei inteira. Ouvi suas palavras e seus incontáveis silêncios, mostrei a cara ao seu tapa e você me virou as costas. Não teve nem a decência de concluir o que começou e já fugiu. Fiz papel de tola, querida, mas não de fraca, ao menos fui até o final. Eu lutei por você até não ter mais forças; e é isso que você me faz? Vamos, vire-se e me olhe nos olhos, admita logo que já é muito tarde e estou cansada de resistir ao que é óbvio.
Você nos destruiu.
12 de fev. de 2011
...
Os anos passam e eu amadureço de uma forma cruel, recuperando pedaços e emendando emoções já tantas vezes estilhaçadas. Me sinto antiga e um pouco exausta, o corpo dói e o coração, às vezes, chora. Ainda há a frustração de não mais me inspirar. Vai ver estou ficando rígida das tantas pancadas que levei, meu sentimento já não vai à flor da pele e eu não perco o compasso da minha tranquilidade. O gosto que eu tinha de me emocionar foi-se, as palavras que antes me eram fluidas agora se misturam e perdem sentido – ou sou eu a embaralhada? - . E dessas minhas catarses paradoxais surgiu uma verdade que me deu um tapa seco e ardido na cara... Eu, objeto gritante, me vi estupefata e muda.
Não, não entregue-se a ninguém.
Tarde demais, faltam tantos pedaços que fiquei meio quebradiça.
1 de nov. de 2010
...
27 de out. de 2010
Preciosidade
2 de set. de 2010
...
Dirijo uma pergunta ao meu universo: Porquê o mundo?
Exijo uma resposta científica para as emoções, as espontaneidades, tudo irracional. Há lógica?
...Há o quê então?
Cigana
Seus pensamentos emergiam uns sobre os outros - colidindo-se, confundindo-se - dando-a um semblante de loucura meio lúcida, meio fantasiosa. Sua sede era tempestuosa a ponto de se tornar destruidora. A procura ávida tornou-a cruel. Sem pausa nem descanso, algo em seu peito jogava-a para frente. Quando a sensação moribunda aumentava, ela matava. Questionando respostas inexatas, emoções instáveis.
Ela não aprendeu a agarrar seus desejos sem estrangulá-los, sem sentir-se estrangulada.