30 de jul. de 2010
Tensão superficial
20 de jun. de 2010
Carnalidade
Bem querer
E mais: eu puramente te desejo. Não só seu beijo, como seu abraço e seu sorriso. É tão peculiar que se for um terço, dois terços, metade ou inteira, se me der, eu aceito. Sim... É assustador demais não depender, não necessitar. Só querer. Afinal acho que te quero tanto, mas tanto... que tanto faz.
Esse desejo desenfreado eu permiti, porque se quisesse, eu o estrangulava como fiz com tantos outros. Decidi por deixá-lo alojar-se em mim por não me consumir – como o parasita se nutre do hospedeiro ou como o viciado em abstinência – pelo contrário: causa calma e aconchego, é anseio transparente com o qual eu sei lidar. É um friozinho bom no ventre, uma quentura no coração.
...Te querer me faz bem.
17 de jun. de 2010
Bicho ferido
E escorraçada, eu me eriço taquicárdica, violenta, violada.
Eu receberia as piores notícias do seus lindos lábios de Marçal Aquino
"O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang está morto. Existe algo mais íntimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?"
"Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, é saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas."
"Estou relendo o trecho em que o professor Schianberg se ocupa da separação dos amantes. As transitórias e as irremediáveis. Ele menciona um maluco norueguês que afundou um navio como oferenda pela volta da amada. O problema é que o navio não era dele, e deu cadeia. Eu afundaria todos os navios nesta noite, Lavínia. Incendiaria o porto. Só para ver o brilho das chamas refletido nos seus olhos escuros."
"Eu adivinhava os dias em que ela viria. Já acordava com a música daquela mulher tocando na cabeça."
"A pessoa mais estranha que já encontrei na vida. E a mais sem medo da morte. Encarava o inevitável como inevitável e pronto.
Doida de rachar."
"A Lavínia sem juízo tinha cheiro de bicho. Suor e tesão. Estava sempre à beira da excitação. E era imprevisível."
"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse."
"O professor Benjamim Schianberg, o homem que dizia ocupar-se das 'fezes da alma', escreveu que nos alimentamos tanto do bem quanto do mórbido. No meio disso, ele assunta, existe a poesia."
"Conhecê-la fez do passado um mero ensaio, um treino antes de ser exposto à sua incandescência."
"Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, velado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo o que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.
Eu chamo de amor."
13 de jun. de 2010
Resquícios
Hoje sou manca, mas consigo andar.
Sua nostalgia me assola em alguns dias.
Oco
Falseou umas palavras,
uns olhares,
uns sorrisos.
Trocou uns beijos,
uns apertos,
uns afagos.
Entediou-se.
Inventou uma desculpa,
foi embora
e levou seus vazios.
Entregue
Passageira
Cigarro
...
Ao cair o breu e eu já nada enxergar a um palmo do nariz,
no exato instante, no breve momento antes do amanhecer…
Corto minha jugular e espero, serena e agonizante, que a minha vida se esvaia até meu corpo secar.
Na explosão do prazeroso delírio que me toma ao sol espreguiçar-se, renasço; e arrebatada pelo desejo imenso de viver,
eu choro. E me ponho a respirar.
Derrota
Quando a alma gritou angustiada pedindo guerra e o coração não mais pôde escutá-la, os olhos já não negavam as lágrimas e as lágrimas enlaçavam os olhos, uma desilusão sacudiu o corpo. E os punhos estourados, e os cortes na face, e os joelhos ralados sangraram.
Fui manca e ferida assumir meu cansaço.
Frio
Frieza é mentira. É brecha. Frieza é porta destrancada, que tem jeitinho de abrir. É porta escondida. É Medusa de pedra. A frieza é sensação de sair da guerra morto-vivo, ferido mudo traumatizado. É medo de chorar. E chorar escondido. Frieza é secar os olhos e sorrir e fingir. Frieza é ouvir o coração acelerar e ignorar. Frieza é queimadura de terceiro grau. Frieza é dormência do tapa na cara. É corcel ferido pedindo tiro de misericórdia. É grito estridente. É ausência.
É silêncio.