20 de jun. de 2010

Carnalidade

Eu detenho as minhas mãos no cós da sua calça, não permitindo que vaguem pelo corpo que já sei todo de cor. Temo perder o controle e enquanto pelejo, você me toma toda. Você me sabe toda. E me usa, procura alguma brecha no resquício da minha sanidade, no pouco do meu controle. Meu instinto grita, se debate e me desafia... Eu mal consigo me segurar ao queimar de desejo enquanto você se entrelaça, colando seu corpo no meu. Em algum lugar do caminho minha mente me abandonou e agora todos os meus sentidos amontoam e se concentram em você: seu gosto, seu cheiro... Um tornado de sensações. Chego a fraquejar envolvida numa embriaguez tão intensa que só é necessário esse segundo para que minhas mãos ajam pelo seu corpo procurando mais e mais da sua pele, por baixo da blusa, por dentro da calça, e eu totalmente aturdida. Minha consciência trava um embate louco e inútil contra o impulso de te sentir, contra essa vontade de você. A lucidez do meu delírio está presa por um fio de sensatez e é o que me impede de me perder no seu corpo.

Bem querer

É que eu te quero. Simples assim. Até poderia querer outra pessoa qualquer, mas não: eu quero é você. Quero quero e quero! Igual a uma teimosa criança. E não é este o fato espantoso, pois afinal é só uma vontade, certo? O que me espanta mesmo é a maneira espontânea com a qual te quero: não me é vital como o ar, é natural, é indolor.
E mais: eu puramente te desejo. Não só seu beijo, como seu abraço e seu sorriso. É tão peculiar que se for um terço, dois terços, metade ou inteira, se me der, eu aceito. Sim... É assustador demais não depender, não necessitar. Só querer. Afinal acho que te quero tanto, mas tanto... que tanto faz.
Esse desejo desenfreado eu permiti, porque se quisesse, eu o estrangulava como fiz com tantos outros. Decidi por deixá-lo alojar-se em mim por não me consumir – como o parasita se nutre do hospedeiro ou como o viciado em abstinência – pelo contrário: causa calma e aconchego, é anseio transparente com o qual eu sei lidar. É um friozinho bom no ventre, uma quentura no coração.
...Te querer me faz bem.

17 de jun. de 2010

Bicho ferido

Eu estou tratando minha tristeza com aspirinas, sorrisos falsos, prazeres surreais. Criei, meio sóbria, minha realidade meia boca. Preferi não sentir meu corpo dolorido, disfarcei feridas que fiz ao me debater pela liberdade que mancha minhas garras de sangue do meu sangue. Mordi a mão que tentou me amordaçar.

E escorraçada, eu me eriço taquicárdica, violenta, violada.

Eu receberia as piores notícias do seus lindos lábios de Marçal Aquino

"O amor é sexualmente transmissível"

"O segredo, dizia Chang, o china da loja, não é descobrir o que as pessoas escondem, e sim entender o que elas mostram. Mas Chang está morto. Existe algo mais íntimo para exibir ao mundo do que as entranhas? Existe algo tão obsceno?"

"Queremos o que não podemos ter, diz o professor Schianberg, o mais obscuro dos filósofos do amor. É normal, é saudável. O que diferencia uma pessoa de outra, ele acrescenta, é o quanto cada um quer o que não pode ter. Nossa ração de poeira das estrelas."

"Estou relendo o trecho em que o professor Schianberg se ocupa da separação dos amantes. As transitórias e as irremediáveis. Ele menciona um maluco norueguês que afundou um navio como oferenda pela volta da amada. O problema é que o navio não era dele, e deu cadeia. Eu afundaria todos os navios nesta noite, Lavínia. Incendiaria o porto. Só para ver o brilho das chamas refletido nos seus olhos escuros."

"Eu adivinhava os dias em que ela viria. Já acordava com a música daquela mulher tocando na cabeça."

"A pessoa mais estranha que já encontrei na vida. E a mais sem medo da morte. Encarava o inevitável como inevitável e pronto.
Doida de rachar."

"A Lavínia sem juízo tinha cheiro de bicho. Suor e tesão. Estava sempre à beira da excitação. E era imprevisível."

"O que acontece é que, quando estou com você, eu me perdôo por todas as lutas que a vida venceu por pontos, e me esqueço completamente que a gente como eu, no fim, acaba saindo mais cedo de bares, de brigas e de amores para não pagar a conta. Isso eu poderia ter dito a ela. Mas não disse."

"O professor Benjamim Schianberg, o homem que dizia ocupar-se das 'fezes da alma', escreveu que nos alimentamos tanto do bem quanto do mórbido. No meio disso, ele assunta, existe a poesia."

"Conhecê-la fez do passado um mero ensaio, um treino antes de ser exposto à sua incandescência."

"Têm sido assim meus dias. Sou mais feliz que 97,6% da humanidade, nas contas do professor Schianberg. Faço parte de uma ínfima minoria, integrada por monges trapistas, alguns matemáticos, noviças abobadas e uns poucos artistas, gente conservada na calda da mansidão à custa de poesia ou barbitúricos. Um clube de dementes de categorias variadas, malucos de diversos calibres. Gente esquisita, que vive alheia nas frestas da realidade. Só assim conseguem entregar-se por inteiro àquilo que consagraram como objeto de culto e devoção. Para viver num estado de excitação constante, confinados num território particular, incandescente, velado aos demais. Uma reserva de sonho contra tudo o que não é doce, sutil ou sereno. É o mais próximo da felicidade que podemos experimentar, sustenta Schianberg.
Não sei que nome você daria a isso.
Bem, não importa muito, chame do que quiser.

Eu chamo de amor."

13 de jun. de 2010

Resquícios

Eu sabia: a dor que brilhava em seus olhos, rugia desesperadamente nos meus, eu sabia do medo, eu sentia sua dor. Naquela noite supliquei, porque não sabia se seria capaz de ficar só.
Hoje sou manca, mas consigo andar.
Sua nostalgia me assola em alguns dias.

Oco

Falseou umas palavras,
uns olhares,
uns sorrisos.
Trocou uns beijos,
uns apertos,
uns afagos.

Entediou-se.
Inventou uma desculpa,
foi embora
e levou seus vazios.

Entregue

Fico frequentemente presa na deliciosa sensação que é seu toque descendo ao longo do meu dorso nú, marcando minha pele quente com nosso contraste arrepiante. Eu, meio tonta, meio enfeitiçada, procuro qualquer sorriso que me guie aos seus lábios. Você, de tão doce, me deixa dócil. E suas mãos vão aplacando meu anseio, atalhos talhados na minha pele, nessa maneira particular de me tomar como se eu pudesse lhe pertencer. Nos seus olhos vejo alguns descompassos; nos seus toques, alguns tremores. Dos seus lábios ouço um sussurro sincero, quase familiar, quase desconhecido. Como eu poderia não ser sua?

Passageira

É inevitável: quem luta como eu, sai ferido, deixa ferido… Por isso passo e deixo, em rastros vermelhos, meu desejo de quem tentou ficar, a mera ardência na boca e no coração, memória do meu arfar.

Cigarro

Faz frio e estou sem casaco. Maldito inverno gelado. Eu ando pelas ruas opacas e resisto a pegar um cigarro. Minhas mãos coçam mas prometi a ela que pararia de fumar. Ela odiava meu vício de preencher com fumaça o vazio no peito e achava insuportável quando meu cheiro misturava-se com tabaco e solidão. Irrito-me em abstinência – não com ela pois por ela eu faço tudo – é o hábito antigo que me faz necessitar de ao menos um trago. Esfrego as mãos esperando que o atrito me aqueça e ignoro meu desejo por um maço de cigarro, de qualquer maneira, necessito-a mais.

...

Ao cair o breu e eu já nada enxergar a um palmo do nariz,

no exato instante, no breve momento antes do amanhecer…

Corto minha jugular e espero, serena e agonizante, que a minha vida se esvaia até meu corpo secar.

Na explosão do prazeroso delírio que me toma ao sol espreguiçar-se, renasço; e arrebatada pelo desejo imenso de viver,

eu choro. E me ponho a respirar.

Algo

falta.

Derrota

Quando a alma gritou angustiada pedindo guerra e o coração não mais pôde escutá-la, os olhos já não negavam as lágrimas e as lágrimas enlaçavam os olhos, uma desilusão sacudiu o corpo. E os punhos estourados, e os cortes na face, e os joelhos ralados sangraram.

Fui manca e ferida assumir meu cansaço.

Frio

Frieza é mentira. É brecha. Frieza é porta destrancada, que tem jeitinho de abrir. É porta escondida. É Medusa de pedra. A frieza é sensação de sair da guerra morto-vivo, ferido mudo traumatizado. É medo de chorar. E chorar escondido. Frieza é secar os olhos e sorrir e fingir. Frieza é ouvir o coração acelerar e ignorar. Frieza é queimadura de terceiro grau. Frieza é dormência do tapa na cara. É corcel ferido pedindo tiro de misericórdia. É grito estridente. É ausência.

É silêncio.

Fuga

Sim, eu sou tão exaustiva… E eu entendo e me perdôo e me contenho. Mas entristeço demais. E vou me afastando, passinho por passinho, abrindo espaço para respirar, afrouxando minhas mãos em seu pescoço. Eu vou antes de te matar, amor. Eu vou. E vou para onde eu possa explodir em minha própria nuance, longe o bastante para que seus olhos não ardam e alheios, não percebam uma única lágrima a me riscar o rosto.

...

Eu sinto uma dificuldade que não dá para descrever, eu não consigo dividir-me. Sou incapaz de dizer e ser coerente, eu sou uma mistura caótica de sentimentos desconhecidos, de razões irracionais. Eu vejo vivaz demais. E ao meu ver, é muito belo quando minha fugaz tentativa de ser compreendida me parece alcançada. Alguém me compreende? Alguém compreende que maior tristeza é não ver o monocromático? Eu sou incapaz de abraçar minhas pernas e balançar-me daqui para lá, daqui para lá, daqui para lá… Assim. É! É assim mesmo.
E agora me vem uma pequena lágrima salgada de melancolia incompleta.